23 dezembro 2011

Intercâmbio mágico

Fotografia de Gisele Magalhães

Há magia por todos os lados. Mas nem todo mundo consegue ver.

Quando eu era pequena, os pequenos milagres do mundo atravessavam o meu corpo e brincavam comigo. Não havia espanto com a beleza. Nem estranhamento com a poesia. O que existia era uma profunda compreensão da existência do jeito mais simples de se compreender tudo: existindo. Assim é o universo infantil. Uma percepção sutil e inteligente de quase tudo. A conexão simples entre o céu que nos abraça e a terra que nos acolhe.

Mas um dia a gente cresce. E ninguém mais te deixa ver as coisas que quer ver nem sentir a vida do jeito que gostaria de sentir. É quando começa o duro processo de bloqueamento do ser. Quando a gente é obrigado a aprender a se conter. Se enquadrar. Obedecer. Dizem que é na infância que a gente cria a sombra, aquele lugarzinho onde moram todos os nossos bichos cabeludos. A sombra se cria porque a gente quer ser o que é, mas se aquilo não se enquadra no quadro chato da caretice adulta, alguém vem e diz: menos fulaninho, menos. E a gente pega aquilo que era mais na gente e esconde. Pronto. Começa então o ardiloso processo de armazenamento de tudo aquilo que em nós poderia ser autêntico - e genial - mas que acaba sendo censurado porque teve algum espírito de porco que veio cortar as nossas asinhas. Sim, na sombra moram os nossos bichos cabeludos, mas também mora a nossa potencialidade mais pura, isto é, aquilo que em nós era magnífico... e que ninguém deixou a gente desenvolver porque precisava se comportar.

Ai que saco.

E olha, tem que entrar no esquema viu, porque senão passa o resto da vida sofrendo sérias retaliações. Já perdi a conta de quantas vezes fui acusada de ser infantil. Como assim você quer correr atrás de vaga-lume? Como assim você quer dançar na chuva? Adultos que ainda tentam ver o mundo com a lente especial da meninice, são e sempre serão acusados de um crime hediondo: imaturidade.

Mas, quando a gente pensa que está tudo perdido, vem a Mãe Natureza e nós dá uma nova chance. Como? Nos dando a incrível oportunidade de colocar criancinhas no mundo. A vida te chama na chincha para crescer – procriar é dar existência a outro ser, ninguém procria sem amadurecimento – mas ao mesmo tempo te dá de brinde uma segunda chance. Você pode olhar para tudo de novo, só que dessa vez, através das lentes coloridas dos seus filhos. Olhar através dos olhinhos deles. Que não deixam de ser um pouco dos seus próprios olhos. Já pensou?

Depois que as minhas filhas nasceram, sinto que voltei a ter permissão de pirar no algodão-doce. E hoje fazemos um intercâmbio mágico, emocionante e curativo. Eu mostro para elas o que há por trás dos desenhos do incenso e da chama da vela e elas me relembram a perfeição das bolinhas de sabão. Aponto o arco-íris no céu e elas me apontam o coelho correndo nos flocos das nuvens. Juntas descobrimos que o mesmo vento que faz a gente rodopiar é o vento que varre o pensamento. E é o mesmo vento que toca o sininho e faz a pipa voar. Se ensino para as duas que dentro dos potinhos de tinta moram um monte de desenhos escondidos, elas me ensinam em que flores no jardim tem cada uma daquelas cores.

Outro dia ouvi Clara dizendo para uma amiga no condomínio: Minha mãe é a única mãe no mundo que deixa a gente tomar banho de chuva." A menina respondeu: "Não é não. A minha também deixa, as vezes. "É, mas ela não toma banho junto com você, toma?"

Há magia por todos os lados. Não consegue enxergar? Faz um neném.

06 dezembro 2011

Eu já tenho


Outro dia olhei para o meu pé e me dei conta de uma certeza avassaladora: eu já tenho um joanete.

Eu já tenho manchas brancas na pele. Brancas e beges. Daquelas que as velhinhas alemãs têm aos montes.

Eu já tenho varizes nas pernas.

Eu já tenho manias.

Mania de tomar chazinho antes de dormir. Mania de passar creme no cotovelo antes de dormir. Mania de dormir na frente da tv.

Surdez eu sempre tive. Isso não é novidade. A novidade agora é colocar o papel bem longe para ler. Isso eu acho graça. Ria da minha mãe quando ela fazia isso e ria. Agora sou eu que posso rir de mim mesma. E olha que eu já tenho um óculos para perto.

Eu já tenho uns cansaços esquisitos, uma dor no joelho misteriosa e uma câimbra na costela esquerda desde a última gravidez.

Eu já tenho rabugices. Detesto quando os homens da minha casa fazem xixi e não fecham a tampa de volta. Me irrito quando abro a geladeira e não tem água gelada nas garrafas, mesmo não gostando de tomar água gelada. Reclamo baixinho sempre que posso. Resmungar é uma rabugice deliciosa de fazer.

Eu já tenho muitas histórias para contar que aconteceram há mais de duas décadas. Tá. Há mais de três. E isso de vez em quando me assusta.

Eu já tenho rugas nos olhos.

Eu já tenho filhas que me aconselham, sobrinhos que namoram e uma avó que nunca mais lembrou de mim.

Eu já tenho cabelos brancos. E levo um susto cada vez que o cabelo ruivo cresce e eu me dou conta de que não sou ruiva e no meu couro cabeludo mora uma grisalha que eu nem conheço.

Eu já tenho isso tudo e nem fiz quarenta anos.

para Renata Pivatelli
minha amiga querida e futura geriatra.

29 novembro 2011

O Tempo do Nada


















É muito cansativo viver todo dia.

Essa coisa de que nada como uma noite entre dois dias para tudo consertar é coisa de quem não tem insônia. Drummond já dizia que “a vida necessita de pausas” e olha que ele nem habitava esse planeta mega-over que a gente habita hoje.

A pausa do sono – para quem não tem insônia – não vale muito. Porque a gente não dorme e dá pause na vida. Não. A gente sonha, tem pesadelo, processa metafisicamente todos os processos emocionais. Faz viagens astrais. Tem gente que trabalha a beça dormindo. Trabalho duro espiritual. Isso para mim não é pausa. Isso é só um outro jeito de estar vivo.

É muito cansativo viver todo dia.

E o pior é não se pode tirar férias da vida. Férias de viver é morrer. E não é eu que eu quisesse morrer um pouco, de vez em quando. Não é isso. Mas acho que deveria existir um sistema opcional no esquema de existir. Uma possibilidade de se dar um tempo sem que isso nos tirasse daqui. Não um botão OFF. Mas um botão NADA.

Será que sou só eu que acordo de manhã, olho no espelho e penso: “ah, não... de novo?” Acho que o que me incomoda mais é que a gente não tem tempo hábil de digerir as coisas que vive. Talvez seja isso. É como sentar para jantar quando se acabou de almoçar. Eu até tenho tentado a meditação. Aliás, há anos eu tento meditar. Mas que lenha que é esse troço. Tudo muito lindo na teoria. Entrar em contato com nosso ser mais profundo, habitar no silêncio. Infinitos minutos tentando, para depois me dar conta de que todas as questões continuam ali, fritando meu cérebro na imensidão escura do meu self. Claro que já tive momentos bons na meditação, onde consegui ver meus pensamentos correrem como um rio e me distanciar de mim mesma como um espírito que se afasta do próprio corpo. Mas isso não descansa ninguém de si mesmo. Bom, pelo menos para mim, a pausa nunca aconteceu aí.
 
Talvez numa outra Era eu não me sentisse tão cansada de viver todos os dias. Quando o planeta ainda tinha 24 horas que obedeciam aos ciclos da natureza e do homem. Mas hoje, nossas 24 horas se transformaram em 15 minutos. A gente vive da ilusão de que tudo vai dar tempo, porque dividiu nossa agenda na angústia fragmentada de dias, semanas, meses. E tenta se acalmar planejando os próximos anos. Uma pinóia. Estamos numa época que afronta qualquer alma. Quem agüenta essa rotina de hoje em dia? Imagina se pegar duas horas de trânsito na Ponte Rio-Niterói não é infinitamente mais estressante do que andar por duas horas numa carroça, atravessando verdes pastos para se chegar a qualquer lugar? Eu sei que vai ter gente me chamando de velhinha de novo. Mas eu não me importo. Sou amante mesmo do tempo que a vela iluminava as noites de amor e que as serestas tomavam o lugar do Jornal Nacional.

É muito cansativo viver todo dia.

Mas talvez seja ainda mais cansativo lutar contra o excesso de informação, as notícias sombrias do mundo, tudo aquilo que entra em nós sem permissão e nos sufoca. Já que Deus não inventou o botão NADA, é preciso pelo menos inventar o tempo do nada. Um tempo em que a pausa dure um pouco mais do que uma respiração profunda. Um suspiro. Um pôr-do-sol.

18 novembro 2011

O Capô da Sorte

(essa pintura eu fiz hoje... me preocupo com os preocupados também!)


É o capô do meu carro que tem me devolvido a esperança na raça humana.

Há uns meses atrás, num trânsito tartaruga na Lagoa, bati a 20 por hora no carro de um velhinho. Fiquei para morrer. Foi um baita susto para mim, imagine para ele. Desci correndo para me desculpar. Sou daquelas que assume a culpa imediatamente mesmo quando não tenho culpa de nada. Nesse caso tinha. Catarina tinha dado um grito, eu tinha levado um susto e intuitivamente, tinha olhado para trás. Em um segundo, o carro da frente freou e o meu entrou na traseira dele. É mais ou menos assim que as coisas acontecem.

Graças a Deus no carro do velhinho não tinha acontecido nada. Só a esposa dele que tinha ficado meio pálida com o tranco. Pedi mil desculpas. Expliquei da Catarina. Perguntei se estava bem. Ela acabou sendo gentil com a minha gentileza de ir até lá pedir perdão. Fez um pequeno sermão de como, em hipótese alguma, devemos olhar para trás enquanto as crianças falam, gritam ou brigam. Tudo deve ser feito pelo espelho retrovisor. Me perguntei se ela teria filhos. Provavelmente não. Mas ouvi resignada. Era o mínimo que podia fazer.

A princípio meu carro parecia ter saído intacto da colisão. Também tinha ficado trêmula, mas pensar nessa despesa, me fazia tiritar. Foi quando ouvi a primeira buzinada frenética do carro ao lado dentro do Túnel Rebouças. Era um homem gritando que o capô estava aberto. Assim que vi um posto, parei. O frentista abriu, analisou e deu o diagnóstico. Tá fechando senhora, mas o capô empenou. Que saco.

Na semana seguinte levei ao mecânico. O orçamento parecia piada. Mil pilas só para desamassar. Tadinho do Billy – esse é o nome do nosso Uno, Billy Ray – talvez numa outra vida eu fosse consertá-lo. O que eu não previa era que o não-conserto do capô fosse me comover tanto.

Passou a ser uma rotina nas nossas vidas. Já temos um discurso pronto. Em média, mais ou menos umas cinco pessoas por dia, nos avisam aflitivamente da abertura do capô. Se por acaso eu vou mais longe, essa estatística dobra.

A solidariedade das pessoas é uma coisa extraordinária. Elas não deixam passar. Tem gente que buzina, grita, acena com os braços, reduz a marcha, abaixo o vidro do carro correndo, faz de tudo por uma comunicação imediata. A abertura de um capô de carro em movimento pode se transformar num acidente fatal. E é isso que deixa todo mundo de cabelo em pé.

Clara e eu colecionamos sorrisos para essa gente bacana. Sou eu que costumo falar, mas às vezes ela se antecipa. Coloca a cabecinha para fora, espera o recado e com o sorriso mais lindo do mundo, tranqüiliza a pessoa. Se preocupa não, moço. Tá empenado. A gente espera o alívio do vizinho e agradece o aviso. Até Catarina já decorou o discurso.

Eu não consertei o Billy por fala de dinheiro. Agora é a gente que não quer mais consertar. É um presente assistir de perto, todos os dias, a sorte batendo no nosso capô.

08 novembro 2011

Na Cama com Morfeu


















O relógio dá uma piscadinha para mim. Onze horas da noite. Perfeito.

As meninas já estão dormindo, a casa está tranqüila. O cd de piano na última faixa, o incenso na guimbinha da cinza. O pijama macio já esquentou o corpo, o chá de erva-cidreira já esquentou a alma. Já pinguei o soro no nariz, o floral na língua. Acho que não falta nada. Só respirar fundo, abraçar minha cama e deitar para dormir.

Fecho os olhos. Intrometido, vem o primeiro pensamento. Xííí... não paguei a conta da internet hoje, putz grila. Não! Nada de repassar a lista do que não foi feito hoje. Amanhã você faz isso. Relaxa.

Respiro profundamente. Esvazio o peito de ar mentalizando esvaziar meu dia que termina. Mudo de posição. Aquela tava meio ruim. Esse edredom tá pouco para o frio de hoje... Será que coloquei cobertor suficiente nas meninas?

Respiro fundo. Clara espirra no outro quarto. Sento na cama e espero o próximo. Ele vem. Tá vendo, coloquei pouca coberta... Levanto, vou até o quarto das meninas, saco mais uma mantinha do armário, cubro as duas e antes de voltar para cama, dou uma última espiadela. Sinto inveja do sono profundo que estão mergulhadas. Tão profundo que parecem pálidas e com olheiras. Uma vez comentei isso com Dra. Manoela – minha irmã shiatsu-acupunturista, grande conhecedora de medicina chinesa – e ela me explicou esse fenômeno que faz minhas bonecas parecem meio mortinhas quando dormem: quando entramos em estado de sono profundo, o nosso chi – energia vital – se recolhe também, ao centro do nosso organismo para se recuperar. Nesse momento, nosso corpo fica em absoluto relaxamento. E é na face que mais percebemos sua ausência.

Sei. Deve ser por isso que estou sempre pálida e com olheiras quando estou acordada. Como durmo pouco, meu pobre chi nunca tem tempo de se recolher. O cara vive cansado. Assim como eu.

Enfim, volto para cama. Deito e deixo o corpo pesar na cama que me acolhe. Cama querida... Ela quer que eu durma. Ela sempre quer que eu durma. Me chama não sei quantas vezes todas as noites. Minha mente cansada também quer dormir. Meu corpo exausto também quer dormir. Ótimo, vamos todos dormir. Fechos os olhos. Respiro fundo.

Procuro ficar quieta na cama, quase imóvel. Contendo qualquer movimento que me distraia. Não deixo o corpo mexer. Não deixo nem as pálpebras se mexerem. Mas não consigo conter o globo ocular. Vejo o escuro da direita. Depois o escuro da esquerda. E quando paro para olhar o escuro do centro, vejo nele uma palavra freneticamente piscando. Em cores fosforescentes. No centro do escuro dos meus olhos, emitindo um sinal malévolo, está mais uma vez, a palavra INSÔNIA.

Pronto. Quando essa constatação é feita, o desencadear dela é destruidor. Eu não posso acreditar que estou com insônia. De novo. Mas que droga!

Assumir uma insônia é como assinar um atestado de óbito de uma noite bem dormida. É perder a esperança de recolher o chi, de descansar o corpo, dar um tempinho para alma. Minha irmã diz que eu tenho muito dificuldade de abrigar o shen – alma etérea - porque sou muito ativa, penso demais, tenho excesso de criatividade. Engraçado ela falar de shen. Os índios chamam nosso excesso de pensamento de chenhenhem. Não parecem palavras primas? Culturas tão distintas falando sobre uma mesma coisa.

Seja o que for: shen ou chenhenhem, já entendi que esse nheco-nheco é a base da minha problemática noturna. Mas o que fazer para mudar esse comportamento maníaco-destruidor?

Sou uma pessoa totalmente avessa a calmantes, tranqüilizantes e qualquer ante que me faça dormir quimicamente. Não sei, tenho uma cisma com qualquer remédio de tarja preta. Parece aviso funerário. E se eu me viciar no vodu? Como é que faço depois para curtir um Passiflorine, uma Maracujina? Nada mais disso vai fazer efeito. E no mais, são anos e anos lutando contra a falta de sono. A longo prazo, a medicina vai ser mais nociva do que o próprio cansaço acumulado.

Quando eu era adolescente, me lembro de precisar colocar uma toalha na soleira da porta, para esconder a luz do quarto acesa durante a madrugada. Tudo para impedir que minha mãe entrasse lá pela décima vez para dizer: mas minha filha, será possível que você não vai dormir de novo!? Tudo bem. Naquela época eu não dormia antes das quatro. E forçava totalmente uma barra para ter insônia. Como dormir se uma vida inteira clamava por mim? Livros a serem lidos, colagens a serem feitas, poesias a serem escritas sob a noite fresca do luar? Dormir era puro perda de tempo.

Mas depois as filhas chegaram. E o sono passou a ser artigo de luxo. Eu vivia exausta. Porque cuidava delas tempo integral. Mas também precisava de tempo para mim. Então, ao invés de descansar enquanto elas descansavam, eu me metia a escrever, estudar e pintar nas únicas horas que me restavam. Resultado? Estafa. Mas só jogava a toalha depois de um diagnóstico alarmante do médico: ou eu dormia, ou a máquina ia pifar de vez. Foram anos de um cansaço profundo. Absoluto. Avassalador.

Isso praticamente descabela minha irmã. Ela acha que 90% dos meus problemas existem por causa da minha falta de sono. Meus cabelos brancos, minha tristeza, minha dificuldade em processar os conflitos, meu desânimo... isso tudo fala da perda constante da minha essência, que os orientais explicam que uma vez perdida, jamais pode ser recuperada.

Tá, eu sei que faço do tempo moeda de troca. E que se uma madrugada resultar num bom texto, eu realmente não me importo em virar um legume no dia seguinte. Mas também... tem troço mais esquisito do que dormir? Vivenciar essa “pequena morte” todos os dias requer um bocado de confiança na vida. Acho meio surreal passar oito horas de olhos fechados, esticada numa cama, desconectada do mundo, sem controle nenhum sobre nada e ainda por cima, sonhando as coisas mais esdrúxulas que a gente sonha. Pô, coisa de maluco.

Descobri há pouquíssimo tempo que Morfeu era um dos mil filhos de Hipnos, o deus do sono. Assim como o pai, era dotado de grandes asas, que o transportavam em poucos instantes, e silenciosamente, aos pontos mais remotos do planeta. Se eu soubesse disso antes já teria mudado de atitude e teria me esforçado bem mais para dormir toda noite. Cair nos braços de um cara desses? Espetáculo de noite!

A partir de hoje vou mudar radicalmente minha estratégia para dormir. Nada de pijaminhos macios e chá de erva-cidreira. Vou deitar de camisola bonita e perfumada. Nada de perder a chance de ir para cama como um deus grego e conquistar o coração daquele que pode ser – e eu nunca soube – a maior inspiração para as minhas criações literárias: Morfeu, o cara que tem o poder de revestir de sonhos a imaginação dos mortais adormecidos. Loucura!

31 outubro 2011

Da nossa natureza

De vez em quando me bate uma dúvida.

Não chega a ser um boicote, nem uma crise séria de autocrítica.

Uma dúvida se de fato o que escrevo um dia servirá à humanidade.

Meu ego gostaria muitíssimo que eu fosse diferente. Que eu estivesse debruçada sobre temas de suma importância para o desenvolvimento humano. Ele queria que eu falasse sobre coisas sérias, muito sérias. E que eu escrevesse um livro sobre qualquer tema – sério - com no mínimo uma edição de dez volumes. Puxa. Isso com certeza o faria parar de me apoquentar.

Mas eu escrevo sobre pombos. Sobre armários em desordem, puns que já senti no metrô. Não há ego que aprove um absurdo desses. Mas sendo sincera, essa é a minha natureza. É da minha natureza observar as coisas pequenas. Aquilo que ninguém viu. Aquilo que ninguém percebeu. É da minha natureza querer encontrar o incomum dentro de todas as coisas. Curtir o que é insignificante. Enaltecer aquilo que ninguém deu bola.

É da minha natureza gostar de mendigos, parar no meio da rua chocada com a beleza do arco-íris, ou ficar felicíssima quando cai uma tempestade no meio da tarde e eu constatar que estou sem guarda-chuva. É da minha natureza soltar um gemido em frente à padaria só porque saiu uma fornada de pães quentinhos, parar para ver passar um fila de formigas ou ficar observando por muito tempo, uma velhinha fumar seu cigarro sozinha, sentada num banco de praça.

Demorei um tempão para entender essa história de ser da natureza de alguém ter uma característica imutável. Na verdade isso só entrou na minha alma quando conheci a fábula africana sobre o sapo e o escorpião. Ela diz mais ou menos assim:

“Certa vez, após uma enchente, um escorpião, querendo passar ao outro lado do rio, aproximou-se de um sapo que estava à beira e fez-lhe um pedido:

- Sapinho, você poderia me carregar até a outra margem deste rio tão largo?

O sapo respondeu:

- Só se eu fosse tolo! Você vai me picar, eu vou ficar paralisado e vou morrer.

O escorpião retrucou, dizendo:

- Isso é ridículo! Eu não pagaria o bem com o mal.

O escorpião tanto insistiu que o sapo, de boa-fé, confiando na lógica do aracnídeo peçonhento, concordou. Levou o escorpião nas costas, enquanto nadava para atravessar o rio. No meio do rio, o escorpião cravou seu ferrão no sapo.

Atingido pelo veneno, já chegando à margem do rio, moribundo, o sapo voltou-se para o escorpião e perguntou:

- Por quê? Por que essa maldade? Por que você fez isso, escorpião?

E o escorpião respondeu:

- Não sei... Não sei mesmo! Talvez porque eu seja um escorpião e essa seja a minha natureza!”

Ai, adoro essa história. Fico com uma peninha do sapo, mas entendo que foi da natureza dele tentar confiar no escorpião. E que foi da natureza do escorpião ter sido o cretino que foi. Compreender isso é uma grande lição.

É da minha natureza querer ver o que está por trás de cada história, a parte invisível das coisas e não levar a vida tão a sério. É da minha natureza ser otimista, colecionar penas e ter mania de reparar no lóbulo de todo mundo. Talvez seja por isso que eu ache a vida tão extraordinária. Porque é da minha natureza ser muito, muito feliz chupando um Chicabon.

24 outubro 2011

Crônica de um caos anunciado

A pilha de roupas emboladas dentro do armário revela: aí vem um tempo de caos. É impressionante como sou previsível. Tudo parece bem na minha vida até que começo a perceber pequenas bagunças se acumulando nos cantinhos escondidos do meu dia-a-dia. É batata. Sinal de que a coisa por dentro não está nada boa. Lido muito mal com a bagunça. A falta de ordem é a denúncia do avesso. Gosto da ilusão de que a ordem é prima-irmã do controle. Se tudo está arrumadinho, quer dizer que tudo está bem.

Não faço idéia de como as pessoas consigam viver no caos. Na minha casa, por exemplo, não há um único item em desuso. Não guardo nada que não precise nem nada que esteja quebrado. Não tenho depósito e geralmente o alto dos armários está vazio. Não tenho apego a coisas antigas. Não guardo alguma coisa porque “talvez precise dela um dia”. Tralha é a antítese do equilíbrio. O inimigo número um do feng shui. Acho até bonita a coleção de inutilezas de Manoel de Barros, mas se ele fosse meu marido com certeza já teria lhe pedido o divórcio.

É por isso, e somente por isso, que em tempos de desequilíbrio interno, é meu armário quem me denuncia.

A coisa começa devagar. Na pilha de blusinhas. Antes muito bem dobradas e empilhadinhas, começam a ser guardadas de qualquer jeito e tamanho. As meias e calcinhas que antes pareciam gaveta de loja de lingerie, da noite para o dia, viram uma coleção de bolotinhas indefinidas. Os sutiãs se confundem com as meia-calças e uma saia que deveria ter sido colocada para lavar, passa a morar no lugar das bolsas. A gaveta de pijamas, outrora cheirosa, agora tem nela jogada um cinto, uma pulseira e uma escova de cabelo. Cheia de cabelos. Nos cabides, começo a pendurar coisas que são dobrar e as de pendurar, empilho. Amassando vestidos, calças e lenços. Os casacos de frio - lindos que estavam guardados por cores - vão se misturando e perdendo a identidade, mafuados no fundo do armário.

Até que a coisa degringola mesmo. E o caos de fora anuncia no grito a confusão de dentro. Já não encontro mais nada em questão de dias. Quanto mais o tempo passa, mais se percebe o grau da minha desconexão. E o que antes se podia desembolar com facilidade, se transforma por preguiça ou medo, num grande e complexo nó. Todos os cacarecos da casa foram parar dentro do armário. Sem me dar conta, estou entupida de questões até a última gaveta.

É nesse momento que chega a hora da faxina. Sem mais nenhum centímetro cúbico de espaço para guardar nada, é tempo de vomitar todas as meias sujas que deixei acumulando tristeza e confusão. Já perdi a conta de quantas vezes isso já me aconteceu na vida. Deixar se instalar o caos só pelo prazer de me achar de novo dentro dele. Brincadeira de gente grande.

Devo confessar que sinto muito prazer nisso. Nesse processo catártico-espacial. Esvaziar gavetas me recicla. Esvazio tudo. Todos os cantos. Todos os cabides. Deixo o armário pelado para me desnudar. E como num ritual de purificação, passo água de lavanda em tudo e recomeço do zero a pilha das blusinhas. Me desfaço da calça comprida que não me cabe mais. Separo uma caixa de doações para todos os trapinhos, que numa boa, não tem mais nada a ver comigo. Até mesmo aquela calcinha - aquela maldita que me dói o coração só de olhar – aquela que tem nela um amor grudado que eu preciso me desfazer... até essa não escapa da limpeza final.

Meu armário é o espelho mais fiel de mim mesma que eu conheço. E é por isso que se ele diz que é preciso desopilar cabides, é isso que eu faço. A gaveta de lingerie ficou vazia. Sinal de que preciso comprar calcinhas novas? Não, sinal de que meu armário está tentando me dizer que é hora de me abrir para novas histórias de amor.

Então tá. Quem sou eu para desobedecer meu alter-ego de seis portas.

19 outubro 2011

Seres Marginais

Ele vinha solitário caminhando pela estação das barcas. Não parecia alegre nem triste. Nem disposto nem cansado. Vinha. E ninguém percebia sua presença. Estava ali, pelo simples acaso de existir, marchando em direção a lugar algum, provavelmente em busca da única coisa que lhe apaziguaria a alma: um restinho de comida qualquer.

Não sei por que que as pessoas têm tanta dificuldade de conviver com seres marginais. Não os marginais fora-da-lei, mas aqueles que estão à margem da sociedade. São sempre escorraçados. Mal tratados. Desrespeitados. E o pior é que no fundo, só desejam o ser e o estar invisíveis para justamente não incomodar ninguém. Coitados. Sempre incomodam.

Bom, mas nesse dia, a minha alma justiceira se inflamou na estação das barcas justamente por causa de um ser marginal. No caso, um pombo cinza desses que todo mundo não quer nem passar perto. O pobre estava quieto, lanchando seu biscoitinho num canto, quando veio um sujeito do nada e lhe deu um chute, sem dó nem piedade. Quando vi a atrocidade, saltei para cima do cara como quem parte em defesa de um filhote. Com o coração aos pulos, perguntei aos gritos pro malvado: “Vem cá, o senhor tá maluco? Enlouqueceu?” Ele tava com cara de quem tinha bebido. Com os olhos vermelhos, meio esbugalhados. Esquisito que só. Demorou um tempão para entender minha pergunta.

Mas eu não me intimidei. Fiquei ali parada em frente ao homem, corajosa e feroz, esperando qualquer resposta que fosse para o crime. Me sentindo o Robin Hood das aves. A Evita Perón dos despenados. Mas é claro que o cretino não conseguiu me responder nada. Ficou me olhando com cara de basbacão depois saiu resmungando uns palavrões até desaparecer na multidão.

Procurei meu amigo para ver se precisava de socorro mas o infeliz já tinha partido. Eles podem ser pacíficos, mas não são bobos. Sinceramente, o que é que leva uma pessoa a dar um toco num pombo? Provavelmente a mesma coisa que leva uma pessoa a colocar fogo num mendigo. Taí. Coitados dos pombos, são a classe-mendigo das aves. Tudo bem, eu sei que eles transmitem doenças e isso já está arqui-comprovado. Mas por isso a gente extermina a espécie feito barata? Trata os pequenos como a verdadeira escória avícola? E não é justamente o pombo o símbolo da paz?

Será que as pessoas sabem que os pombos tem uma perspectiva de vida na cidade de cinco anos e no meio da natureza de quinze? Será mesmo que elas acham que eles gostam de viver aqui e serem enxotados o tempo todo? Caramba. Aposto que ninguém sabe que os pombos são umas das únicas espécies de aves que formam um par a vida toda. E que quando vieram para o Brasil – eles são de origem européia, imagine – foram trazidos nos navios portugueses para serem servidos de alimento para a tripulação.

É minha gente, antes de ser considerado uma praga urbana, neguinho comia pombo ensopadinho, igual galinha. Acho-te uma graça.

10 outubro 2011

Caravana Urbana

 













Transportes coletivos são uma experiência antropológica fascinante.

Um laboratório perfeito para observação e tentativa de compreensão dos costumes humanos. Tem muita gente que detesta pegar ônibus e metrô. Eu adoro. É o único lugar onde a gente tem a chance de viver determinadas situações. É claro que eu prefiro metrô. Os ônibus no Rio de Janeiro são calorentos, barulhentos e fedorentos. Muitos “entos” para uma coisa só. Já metrô é outra história. Tem ar condicionado, é mais seguro, confortável e ainda por cima tem aquela musiquinha ambiente nas estações. E a pinta de trem europeu. Acho chique. É o meu favorito.

Já vivi de tudo no metrô.
Outro dia peguei o trem na Carioca para ir à terapia. Faço uma jornada para ir até lá - já que moro em Niterói e a terapia é na Tijuca – e por isso tenho que pegar ônibus, barca e metrô. Faz parte do processo. A estação da Carioca geralmente está cheia, a qualquer hora do dia. Só que nesse dia, não sei por que, a coisa tinha colapsado. Gente saindo pelo ladrão. Para sair e para entrar. O que eu acho curioso é a postura das pessoas diante da epopéia para se entrar no vagão. Não, porque elas não estavam entrando. Estavam se encaixando, como sardinha em lata, espremidas umas pelas outras, desesperadas em não perder a viagem. E o pior... agindo normalmente diante daquela situação medieval. Gente, o que é isso?

Eu fui, mas fui porque estava muito atrasada. Só que na hora de entrar, fui imprensada entre vários corpos. Pronto, bastou a porta fechar para me dar uma vontade desesperada de rir. Vejam bem: na minha frente, grudado no meu nariz, estavam os peitos gigantescos de uma negona, trabalhados num decote sensual e abundante. À minha direita, a catinga inebriante de um sovaco cabeludo de um ser com camiseta cavada. À minha esquerda, um executivo seríssimo de paletó e gravata e atrás, bem atrás de mim - grudado na minha bunda - um velhinho desdentado para lá de safado que não parava de me sarrar. Não dá para se levar a sério uma situação dessas.

Tá, eu sei que a ocasião faz o ladrão e que 90% das pessoas ali não tem escolha. Mas o que me choca é como que as pessoas reagem àquela situação. É surreal. De repente, se cria entre elas uma intimidade forçada. Elas estão grudadas umas nas outras, cafungando o pescoço de um, encostando suas partes íntimas no outro, num amasso grupal sufocante, onde não há como fugir. É uma catarse comportamental. Um apogeu sensorial. E todo mundo vivendo isso com cara de pudim. Como é que pode?

Já vivi coisas extraordinárias no metrô.
Uma vez uma moça começou a explicar para a vizinha ao lado, sua amiga, como se fazia um ensopadinho de frango com ervas. Nos mínimos detalhes. Só que eram seis horas da tarde e provavelmente 99% das pessoas ali estavam famintas. Eu reparei. As pessoas começaram a olhar para ela e imaginar cada um daqueles sabores... e a sentir o cheiro da cebola que você frita no azeite, depois coloca o frango... nossa senhora! O povo ficou desesperado com o relato. Teve gente até babando.

Em metrô se ouve de tudo. Não é só receita não. Há discussões filosóficas, políticas, religiosas. Casal discutindo relação. Gente contando segredo achando que não tem ninguém ouvindo. E a diversidade de cheiros? Sentar do lado de alguém cheiroso para mim é quase como ver arco-íris depois da chuva, uma loteria. Adoro. Fico lá curtindo aquele paraíso e por dentro agradecendo o bom gosto do vizinho. Mas nem sempre tenho essa sorte.

Com o olfato apurado que tenho, faço viagens que são um verdadeiro tormento. Sinto de longe os sovacos vencidos, os bafos matinais, a calça jeans do menino que não secou direito, a naftalina no casaco da velhinha. Mas é claro que não há nada, absolutamente nada pior, do que quando alguém solta um pum.

Eu vivi uma catástrofe dessas outro dia.
Estava presa entre quatro corpos quando senti um ventinho nefasto vindo debaixo. No primeiro momento me deu uma onda de enjôo. Depois quis olhar bem para cada um dos suspeitos do crime. Mas não adiantou. Depois do pum, cada um olhou para um lado. Tipo “não estou sentindo nada”. O bom é que do enjôo e da raiva, eu pulei logo pro estágio divertido que é a vontade incontrolável de rir. Quem sabe um dia, eu ainda consigo ter a cara de pau de perguntar bem alto para todo mundo ouvir: “Pessoal, fala sério, quem peidou?”

Mas o melhor que se pode viver dentro de um metrô é uma paquera. Uma paquera inesquecível.

Ele tinha o braço todo tatuado, mas o que me chamou a atenção no desenho era o Buda, colorido e sorridente, perto do cotovelo. Estávamos todos em pé, segurando aquela barra de metal entre as saídas do vagão. Eu, ele e mais umas quatro pessoas. Nossos braços, esticados, formavam uma flor humana perfeita. Eu olhei para ele. Ele me olhou. E como nas frações de segundo mágicas que acontecem as vezes, naquele instante, nos encantamos um pelo outro. Só pelo olhar. Só por todo o universo existente em cada um de nós que trocamos naquele olhar. Essas coisas difíceis de explicar.

Ele não era bonito. Meio baixinho. Provavelmente, tinha acabado de sair do banho, porque os cabelos – bem pretos, encaracolados – ainda estavam molhados. Aquela primeira olhada tinha me gelado por dentro. Isso é curioso numa paquera. Milhões de pessoas trocam olhares por dia em todas as estações de metrô do mundo. Por que as vezes a gente olha para uma única pessoa e sente um troço esquisito por dentro? Tomamos coragem e nos olhamos de novo. Dessa vez por uns segundos à mais. Pronto. Foi o que bastou para eu ficar mole. Meu coração agüenta pouco esse tipo de emoção. Fora que eu fico meio envergonhada com a platéia. A flor de braços já tinha sacado nossos olhares. Óbvio! Tava saindo faísca. Peguei o celular para disfarçar. Ele fez o mesmo. Pensei comigo: que pena que não existe um bluetooth automático para se captar o telefone do vizinho... Ele deve ter lido meu pensamento, porque sorriu na mesma hora. Um sorriso Colgate, cheio de dentes lindos e brancos. Olhamos para o chão. Depois para o céu, para todas aquelas estrelas que tinham surgido ali sobre nós dois. Mais uma estação se passou. De repente, ele me olhou sério como se quisesse me dizer qualquer coisa. O trem parou e ele foi se distanciando de mim. Quando eu vi, já estava do lado de fora do trem. A porta fechou e a gente continuou se olhando. Se despedindo pelos olhos, como se fossemos um casal apaixonado que está se separando pela primeira vez.

Foi quando eu ouvi a voz de um senhor que estava na minha frente dizer: deu bobeira menina, devia ter saltado com ele e trocado telefone. Olhei bem para cara do sujeito sem acreditar no que ouvia. Será que eu tava sonhando? Nunca esqueci aquele dia. E se ele fosse o amor da minha vida?

Surreal? Não. Isso é coisa de quem freqüenta caravana urbana.

03 outubro 2011

Simpatia é Amor


Eu estava na fila do banco. Fila de banco geralmente é um lugar perigoso. Se você der mole, pode levar uma mordida de alguém. As pessoas, que estão sempre com pressa, na fila do banco estão insuportavelmente apressadas. Bufam de minuto em minuto a impotência de não poder fazer nada contra o tempo que corre e a fila que não anda.

Eu, que não sou boba nem nada, sempre levo alguma coisinha para ler. Não sei se para me entreter ou se para me salvar do mau humor do vizinho ao lado. A questão é que nesse dia eu estava lá na fila do banco e mesmo tendo em mãos um artigo interessantíssimo sobre formigas para ler, de tempos em tempos, levantava a cabeça para observar as pessoas. Se tem uma coisa que eu adoro fazer é observar as pessoas. Nos mínimos detalhes. E quando tenho tempo, ainda invento uma história para cada um. Pois bem. Nesse dia enquanto eu levantava a cabeça, a moça que tava na minha frente na fila, se virou e olhou para mim. Trocamos rapidamente um olhar e do nada - do nada mesmo – ela me abriu um sorriso enorme, desses que tem dentro um sol inteiro brilhando.

Aquele sorriso me derreteu. Inundou minha alma de um sentimento tão puro, tão profundo, que eu devolvi a ela o melhor sorriso que podia, o maior que tivesse no meu repertório de sorrisos. E naquela fração de segundos ficamos daquele jeito, trocando uma espécie de amor incondicional, que só existe em gente que tem a capacidade de amar dentro de peito.

De todas as qualidades do ser humano, simpatia ainda é uma das que mais me espanta. Tenho verdadeiro fascínio por gente simpática. Porque é tão genuíno. Tão gratuito. E ao mesmo tempo tão generoso.

Depois que a moça se virou, eu fiquei olhando de rabo de olho para ela. E pensando, o que faz uma pessoa ser assim? Educação? Índole? Temperamento? Será que as pessoas que são sempre simpáticas estão obrigatoriamente de bem com a vida? Não creio. Me lembro de uma vez ter ouvido um dos elogios mais sinceros que já ganhei na vida. Foi de um porteiro, o Luis. Ele disse assim: Dona Tati, faça chuva ou faça sol, está sempre sorrindo. Eu sei que tem dias que a senhora está triste. Mas mesmo triste, tem sempre um pouco de doçura para nos dizer bom dia. Quem agüenta com uma coisa dessas? O dia que ouvi isso do Luis tive vontade de chorar.

Acho que simpatia é uma coisa que a pessoa nasce com. Não é nada que se possa adquirir com o tempo ou moldar na própria personalidade por simples desejo. Simpatia é um dom. Uma dádiva concedida pela natureza que se espalha pelo mundo por absoluta osmose comportamental. O que faz uma pessoa assobiar na rua? Dar passagem para você entrar primeiro? Te abrir a porta do elevador - e mesmo que esteja no fim de um dia muito difícil, ainda assim - lhe dar um boa noite sonoro e verdadeiro? O que faz uma pessoa, mesmo sem te conhecer, te oferecer um sorriso ou uma ajuda para qualquer coisa que seja?

Simpatia que é prima da gentileza que é prima do amor. Tá tudo no mesmo pacote. Queria oferecer essa crônica àquela moça da fila no banco. Que eu nunca mais vou encontrar, nem sequer esbarrar. Mas que me ensinou profundamente o valor que a vida tem, quando a gente oferece ao outro, o sol que brilha dentro da gente.

27 setembro 2011

O altar de todos os dias

“Fé é crer no que não vemos.
O prêmio da fé é ver o que cremos”.
Santo Agostinho


No dia que troquei a rotina pelo ritual, ganhei meu destino.

Aconteceu de um dia para o outro. Eu coloquei uma música, acendi uma vela e entendi que ou pegava minha vida no laço ou ela ia passar batida sem que eu conseguisse fazer nada do que desejava. E eu desejava muito. Muitas coisas.

A vida é mais ou menos assim. Ela passa depressa, como um trem sem freio. E se a gente não se atenta, perde a viagem. Eu sempre tive dificuldade de encaixar minha alma no presente. Vivo viajando numa outra dimensão, flutuando na imensidão etérea da minha existência. Só que com isso, não consigo realizar quase projeto nenhum. Claro né. E pipa tem lá algum objetivo que não seja apenas... voar? Foi quando eu entendi que eu precisava mesmo plantar os pés no chão. Virar um Jequitibá falante. Enraizar minhas idéias, florescer meus projetos, tornar meus sonhos frutos maduros e suculentos.

Descobrir o ritual foi quase como descobrir a pólvora. Porque nele está contido todo o extraordinário poder da intenção. Essa coisa simples e bonita que Deus nos deu e que a gente tem como um potencial radioativo bem no centro do peito. Mas uma coisa precisa da outra. Não adianta ter uma intenção clara e objetiva, se a gente não tem um lugar que nos faça olhar para ela diariamente. É preciso um plano de ação. Uma estratégia metódica para sacramentar a intenção.

Foi quando nasceu meu altar de todos os dias. Altar é um lugar qualquer que você elege dentro da sua casa que vai cercar o seu espaço sagrado. É lá que você vai reunir tudo o que considera importante para lembrar seus objetivos e consagrar diariamente os passos percorridos na sua caminhada. Qualquer objeto pode ser sacralizado. Se ele tem um propósito ou se você o considera um objeto de poder, o importante é que ele esteja lá. Independente da sua religião, todo o indivíduo pode ter um altar que represente a sua própria verdade. Ele deve ser pessoal e intransferível. E sobretudo um território livre para que as bênçãos caiam sobre ele com abundância e prosperidade.

Meu altar tem de tudo um pouco. Começando pelos quatro elementos: terra, água, fogo e ar. Esse quarteto fantástico reúne toda a sabedoria milenar que rege nosso planeta. Terra representa nosso corpo, nossa Mãe Terra. Nossa conexão com as matas, as árvores, as pedras. Água representa nosso sangue. Nossos oceanos, nossos rios. As águas internas que regem nossos sentimentos. Sangue, suor e lágrimas! Ar representa nosso sopro divino. Aquilo que nos dá a vida. E por fim, fogo representa nosso espírito. Nossa paixão. Nossa força criativa.

É mexendo neles que começo o processo. Em cima de uma toalha de linho branco, ajeito com todo o cuidado meu quadrado mágico metafísico: acendo a vela do dia, meu incenso cheiroso, honro a água que está no copo de vidro mais bonito da casa. Honro a flor que está dentro do copo, colhida diretamente do meu jardim para trazer beleza e delicadeza ao altar. Toco na pedra de cristal e lembro que foi colhida dentro de uma caverna, há alguns anos atrás. Fecho os olhos e sinto ser a conexão entre o meu Pai Céu e a minha Mãe Terra. Pronto. O portal mágico foi aberto. Depois é só colocar uma música especial tocando bem alto e começar a chamar a força e a presença do pessoal. Cada um vai fazer do seu jeito.

Depois que iniciei minha caminhada no xamanismo, começo sempre pedindo a benção do Grande Espírito. Depois chamo a força dos meus ancestrais sagrados, meus mestres espirituais, a guiança do meu animal de poder... nossa... é uma patota que eu chamo todo dia. E de repente eu sinto todos ali, reunidos sobre a minha cabeça, unidos para fazer da minha jornada um caminho aberto, próspero, abundante e equilibrado. Acho que nunca me senti tão assessorada em toda a minha vida.

Engraçado, fé foi uma coisa que eu aprendi a ter depois de burra velha. E na verdade não acho que seja uma coisa que possa ser ensinada. Posso ensinar minhas filhas a ter confiança. A acreditarem profundamente em algo. Mas fé é um processo individual de busca. Uma força colossal que vem de dentro de nós. De um lugar muito profundo de nós. E isso não tem como ensinar a ninguém. Ele faz parte do processo de individuação de cada um de nós.

Ah, foi tão bom quando eu aprendi a rezar. Eu sempre tive tanta dificuldade para falar com Deus. Não fui batizada em religião nenhuma. Meus pais nem tios nem avós tinham esse hábito. Mas eu sabia que orar tinha cara de ser uma prática poderosa. Tentei muitas vezes rezar o Pai Nosso, mas nunca senti muita verdade naquelas palavras. Depois tentei a Ave Maria. Ela tinha um quê de poder feminino. Mas a parte que eu precisava que ela rogasse por nós pecadores... nessa parte minha boca travava. Pecadora? Mas eu não me sentia uma pecadora. Tudo que fazia na vida estava de acordo com o meu coração. Só preguei o bem e tinha um profundo respeito por todas as coisas. Como é que eu podia ser pecadora?

O dia que eu consegui ultrapassar todos os meus preconceitos, abri meu coração e falei: “Deus, você está aí? Pode me ouvir? Olha, eu preciso falar umas coisas com você...” Nossa, esse foi um dos melhores dias da minha vida. Depois disso, foi só me abrir para o caminho espiritual que tudo o mais foi acontecendo.

Faço a manutenção do meu altar, religiosamente, todos os dias. Troco as flores, a água, a vela, o incenso. Limpo. Renovo cada intenção em cada coisa. As vezes coloco pedacinhos de papel com palavras escritas. Outras, coloco fotos de alguém. O que me der na telha eu coloco. Basta ter uma motivação que venha de dentro. Pode ser uma concha, uma frase, uma pintura. Meu altar é um lugar inventado onde habitam todos os meus sonhos. Estar com ele é como estar com o mais genuíno de mim mesma. Com tudo aquilo que anseio, acredito e desejo. É estar de frente para a estrada da minha vida e repetir, quantas vezes forem necessárias, quem sou, para onde vou e principalmente, o que vim fazer aqui. Ahow!

26 setembro 2011

Florescendo















Quando a primavera entrou na minha janela sexta-feira passada, eu pensei: meu deus, eu não acredito que já faz cinco meses que eu me despedi do blog. Me lembro a repercussão que teve aquela “carta de despedida”. A quantidade de gente me ligando, aflita, querendo saber direito para onde eu tava indo e que tom era aquele de suicídio. Puxa vida. Tive que acalmar um por um. Explicar que a jornada era para dentro e que a decisão de viajar tinha a ver com uma preparação que o outono me exigia, para agüentar a barra de enfrentar o inverno dentro de mim mesma.

Desde que comecei a trilhar o caminho vermelho, a viver minha vida de acordo com as tradições do xamanismo, honrando o conhecimento, a espiritualidade, a sabedoria e a medicina através das rodas de cura, eu entendi que todas as respostas que eu buscava estavam dentro de mim. Por isso, o desejo de me recolher estava tão latente. A gente tem sempre tantos estímulos externos, tanta coisa que nos puxa para fora. Eu sabia que só mergulhando para dentro do meu coração, poderia achar algum sentido para toda essa loucura que a gente vive, todos os dias, todos os meses e anos da nossa vida.

Se eu achei algum sentido?

A gente, claro que não né. Eu trouxe foi um bocado de aprendizados. Porque o sentido da vida nada mais é que uma incrível coleção de aprendizados. E se a primavera chegou, é sinal que um novo ciclo começa e que mesmo que eu não me sinta pronta, eu preciso me deixar florescer.

Por isso estou de volta ao blog, trazendo os textos que escrevi durante a hibernação, que infelizmente - ao contrário dos ursos - me deu uma fome gigantesca e me fez comer muito no inverno. Isso que dá trabalhar em casa. Ainda bem que eu comecei a natação.

Outra novidade é que volto a assinar meus textos com o meu nome verdadeiro, Tatiana Monteiro. Me despeço do Telink com toda a gratidão por tudo que esse nome me trouxe. Mas entendi que tudo que não é reconhecido, não é celebrado. E o que não é celebrado, acaba saindo da nossa vida. Quero trazer de volta o nome que fui registrada. Ele tem a força dos meus ancestrais sagrados, aqueles que me ajudam e me ancoram em tudo aquilo que de fato, vim fazer aqui.

Sejam todos muito bem-vindos. Vocês e a primavera!
Ahow!

23 abril 2011

CARTA DE DESPEDIDA




Esta é uma carta de despedida.
Ou um desejo profundo de dar satisfação àqueles que me perguntam porque tenho escrito tão pouco, àqueles que não entendem porque tenho escrito tão pouco e principalmente àqueles que estão muito bravos por eu escrever tão pouco. A todos, um abraço apertado de muito obrigada.

Depois de muita elaboração e insônia, cheguei a conclusão que é chegada a hora da partida. Hora de dar o primeiro passo rumo à uma jornada que há muito tempo tenho adiado: a de ir em busca do que faz sentido na minha vida. Porque é aquela coisa né gente, a Liz Gilbert que me perdoe (eu amei COMER, REZAR e AMAR) mas fazer uma jornada em busca da vida sem a menor preocupação de nada pela Itália, Índia e Indonésia é mole. Agora quero ver fazer isso todos os dias no mesmo endereço, ganhando pouco, na rotina massacrante do cotidiano, sozinha para resolver todos os problemas financeiros e domésticos, cuidando de duas filhas pequenas e ainda tendo que dar conta dos pesadelos da noite e das malcriações do dia. Isso sim é desafio.

Percebi que a única forma de fazer essa jornada é arrumando uma trouxinha e partindo em direção à Estrada Amarela. Aquela que me levará ao Mágico de Oz. Que me dirá que as respostas que tanto busco, não estão em lugar algum a não ser dentro de mim mesma. Parece fácil, mas não é. O projeto não é parar de escrever, e sim, escrever todos os dias. Sobre essa viagem. E quem sabe um dia, transcrever esse diário e transformá-lo num livro de auto-ajuda igualzinho ao da Liz Gilbert, só que numa versão terceiro mundista tupiniquim. Tô brincando. O objetivo da jornada é a jornada mesmo. O que vai acontecer depois realmente não tem a menor importância.  

Escrever nesse blog é maravilhoso. Sempre foi. Essa coisa de elevar o insignificante, colocar uma lupa naquilo que pouca gente consegue ver, tentar contar a parte invisível das histórias é fascinante. Mas eu preciso focar minha energia num projeto só ou vou acabar ficando louca.

Semana passada estive numa psiquiatra. Sentei na cadeira e desabei. Contei que nem a terapia, nem a meditação nem as orações estavam dando conta do meu equilíbrio. Pedi desesperada: moça, me dá aí uma droga qualquer para me ajudar a passar por esse pedaço... quero fazer tantas coisas, mas o corpo não reage. Tenho cansaço e tristeza todo dia... Se eu continuar assim vou morrer... Ela me acalmou, claro - porque que eu tenho que ser sempre tão dramática? - e disse que eu não parecia uma pessoa deprimida e sim sob forte estresse pelos acontecimentos da vida. Mas mesmo assim me receitou um anti-depressivo (que ia me ajudar a formar um escudo protetor) e um ansiolítico (para me acalmar e me deixar pianinho).

Fui para casa e tomei o lance. Uma hora. Duas horas. Comecei a ficar enjoada. Boca seca. Um bocejo. Dois. Dez. Vinte! Caramba! Fui ficando chapada, meio grogue, meio apática. Dormi feito uma pedra. No dia seguinte liguei para ela. Questionei o processo. Ela disse que era assim mesmo. Que o corpo estava se acostumando à droga e que depois de uns dias, todos os efeitos colaterais iriam passar. Desliguei, peguei as caixinhas de tarja preta e joguei tudo no lixo. Tá louca que eu vou fazer isso com o meu corpinho!

A verdade nua e crua é que não existe saída do meu labirinto. Sair significa entrar ainda mais. Primeiro ter coragem de olhar para cada canto, depois começar o difícil processo de eliminação. De tudo que está velho, que não serve mais, tudo aquilo que simplesmente não tem mais sentido. Limpar o coração, olhar pro que eu faço todos os dias e perguntar... meu deus, será que isso é meu ou é do vizinho e eu peguei para mim por um wireless equivocado?

Sei lá. Eu tô realmente acreditando que a cura para minha depressão é mesmo renovar os meus propósitos e só ter pensamentos que apoiem essa minha mudança. Abrir mão de controlar tudo. Esse é o grande ensinamento. O master. O top. Eu fico aí me maldizendo, reclamando de ser uma Drama Queen, mas a grande verdade é que essa morte que eu tanto falo e tanto temo, precisa acontecer. Só renasce quem se permite morrer. Só alcança leveza, quem se livra de tudo aquilo que pesa. Como na cena final de “Viagem a Darjeeling” quando ele corre desesperado atrás do trem e sai largando todas as malas para trás, uma a uma. Que sensação maravilhosa essa de deixar para trás tudo aquilo que não serve mais. Ai... um longo processo. E para isso, só pegando a Estrada Amarela.

Esta é uma carta de despedida. Mas acabei de descobrir que não estou me despedindo de vocês. Estou me despedindo de mim mesma.

Volto quem sabe na primavera. Celebrar com vocês tudo aquilo que em mim vai poder enfim florescer. 

Um beijo em cada um,
Tatiana

17 março 2011

LUZ NO FIM DA SOMBRA

“Algún día, en cualquier parte, en cualquier lugar indefectiblemente te encontrarás a ti mismo, y ésa... sólo ésa, puede ser la más feliz o la más amarga de tus horas.”
 Pablo Neruda

E então, de repente, tudo escurece.

E onde havia luz, clareza e leveza, se transforma num quarto escuro, abafado e aflito. A vida é assim, eu sei. Dia e noite. Noite e dia. Luz e sombra. Mas a questão é que quando anoitece dentro da gente é assustador. Já passei por algumas crises de tristeza e depressão. Até de pânico já tive que me tratar. Porque a vida é assim, para quem está vivo. Uma montanha russa nada divertida de controvérsias emocionais. A gente vive porque respira. Porque acorda no dia seguinte mesmo que tenha tomado um calmante. Porque a realidade do lado de fora não respeita nosso sofrimento interno. Porque o sol nasce e não espera a esperança acordar. O mundo gira freneticamente e por mais que em algum momento a gente peça desesperadamente para o mundo parar, ele não pára.

Há uma linha muito tênue que divide a luz da escuridão. Mas para quem já atravessou essa divisa, sabe que do outro lado, há um lugar desconhecido e aterrorizante. Porque este lugar está, exatamente, dentro de cada um de nós. E é nessa sombra que mora tudo aquilo que desejamos guardar, esconder, fingir que não existe. Segundo Jung, a coisa que uma pessoa não tem desejo de ser. E por mais que tentemos usar de todos os subterfúgios externos possíveis, um dia, sem mais nem menos, tudo escurece. E o que havia estado escondido, aparece para nós como um bicho feroz, cheio de dentes afiados e um olhar demoníaco. E passamos a viver um pesadelo mesmo estando acordados. Dizem que quanto mais tentamos conter nossa sombra, mais negra e densa ela se torna.

Durante muito tempo da minha vida tentei driblar meus demônios. Quando a escuridão vinha, eu me escondia de mim mesma sem que ninguém percebesse, num lugar bem quieto e esperava de olhos fechados, o bicho cabeludo passar. Nunca me passou pela cabeça a possibilidade de acender uma vela sobre nenhuma característica nefasta minha que surgisse por ali. Fazer isso como? Com que armas? Com meu otimismo ridículo? Com essa minha fé desconfiada? É preciso coragem para viver. Mas é preciso muito mais do que coragem para enfrentar o que somos. E o pior, enfrentar o que há de mais vergonhoso em nós.

Na minha sombra habitam Tatianas imorais, Tatianas suicídas, Tatianas sem esperança, inflamadas de um rancor dolorido com a vida e com Deus. E a cada vez que anoitece e essas Tatianas surgem, eu choro sem parar, porque tenho muito medo de que um dia, elas tomem conta do que há de melhor e mais puro em mim.

Talvez tenha chegado a hora de acender as tais velas no subterrâneo da minha alma. Acender velas ou tecer palavras incandescentes que possam iluminar meu caminho. Essa coisa de escrever tem me enchido de uma coragem samuraica. Não sei de onde isso vem, mas é gigantesco. Draconiano. Estupendo. É com as palavras que quero enfrentar minha escuridão. Porque é com elas que posso sair inteira dessa caverna sombria que, tantas vezes, me obrigo involuntariamente a entrar. Porque por mais esclarecedor que seja o enfrentamento da sombra, é na luz que geramos vida. É na luz que se vive plenamente. É na luz que se amanhece por dentro.

04 março 2011

Bipolaridade Materna

Arte de Maitena


Minha bipolaridade materna ainda vai me enlouquecer.

Não sei quantas mães passam por isso. Não sei dentro de quantas casas isso acontece. Mas a verdade é que tem dias que eu preciso sair correndo e ir dar um grito bem histérico na varanda. Mesmo que seja um grito histérico mudo, para não assustar as meninas nem os vizinhos. Uma das minhas tentativas desesperadas de equilibrio psicológico.

Gente, criança é uma dádiva. Em todas as fases. Em todos os sentidos. Conceber, parir, alimentar. Depois ver crescer, se desenvolver, desabrochar. Esses anjos caídos do céu tem o cheiro mais inebriante que eu já senti. Eles tem pele de nuvem. São espontâneos, adoráveis, amorosos. E conseguem conter dentro daquele corpinho minúsculo, o melhor e mais genuíno da nossa espécie. Mas as vezes - muitas vezes – também são as criaturinhas mais insuportáveis do mundo.

Deixa eu explicar.

Quem me conhece sabe que eu sou, desde que as gurias nasceram, um coração partido em dois batendo fora do corpo. Foi depois que Clarabela e Catalinda chegaram, que minha vida passou a ter sentido. Não que antes a vida não fosse maravilhosa. Ela era. Mas sentido, não tinha não. Minhas meninas me trouxeram em suas asas uma certeza etérea de pertencimento ao mundo. Uma resposta concreta às perguntas mais existenciais que eu já tinha feito às estrelas. Um entendimento absoluto da minha capacidade de amar e me doar em forma de leite, afeto e compreensão.

Mas quando os nenéns deixam de ser nenéns e se tornam essas coisinhas que andam e gesticulam e falam e se acham gentinha, trazem com elas acoplado às bochechas, um teste diário de paciência, resistência e benevolência. E é aí que a gente entra em contato com um adormecido monstro do Lago Ness dentro de nós. Porque essas nossas criancinhas provocam na gente os mais contraditórios sentimentos. Dizem as más linguas psicanalíticas, que quem sofre o rompante dessa raiva colossal, nem sempre é a Tatiana adulta e consciente e sim, uma criança interna minha que de alguma forma foi ferida e reage lá de dentro com um sentimento quase sempre... infantil. Hã... é, pode ser. Mas independente de quem ou o quê acorda o meu monstro no fundo do lago, a questão é que me assusta muito a percepção dessa bipolaridade que meu coração é capaz de chegar.

A oscilação entre amor e ódio ocorre entre segundos. Dou o grito. Ela não obedece. Mas é quarta vez que eu estou pedindo para você entrar no banho! Ai ela dá um sorriso. Eu me desmancho. Finalmente entra no chuveiro. Outra malcriação. Agora o drama é para passar o xampu. E eu penso comigo: meu deus, eu tô tão cansada... Ela retruca: mas mamãe, eu tenho dileito de fazer tudo sozinha! Aí eu acho lindo. E me encho de orgulho por esse desejo dela de emancipação. O trocinho só três anos! O tempo passa. Vamos sair do banho, meu anjo? Agora a manha é para sair do banho. Mas você chorou tanto para entrar, não dá para variar um pouco o repertório e não chorar para sair? Não. Não dá. Ela tá cansada - eu penso. Paciência, mamãe, paciência... Dou-lhe uma, dou-lhe duas... Catarina! Ela cruza os braços e me dá as costas. Para não enforcar o pescocinho, vou até a cozinha tomar um chá mate. Respiro fundo. Volto e digo alto e em bom tom: Vamos sair A-GO-RA. Ela diz que não. Então eu desligo o chuveiro e uso minha força para colocá-la para fora. Firme, a coloco em pé em cima do tapetinho do banheiro. Ela recolhe as pernas. Senhor, alguém me ajuda! É quando finalmente eu dou o grito que balança a casa. Ela se assusta. Coloca os pés no chão devagarinho. E das duas bilhas castanhas saltam duas gotas de lágrimas sentidas e transparentes. Aquele choro sofrido. Mudo. Decepcionado. Meu coração se contrai e eu penso: como posso ser tão megera?

Alou? Alguém pode me internar?

Nessas horas eu não penso em mais nada. Claro, porque depois do choro ela diz sempre: mamãe, será que você pode me dar um abracinho agora? Mas depois... depois que eu me acalmo e volto a ter algum discernimento, entendo que não vai dar nunca para compreender o que é um coração bipolar.

Vocês acham que a coisa pára por aí? Não... a coisa não termina nesse happy end lindo. Minha noite ainda me reserva todo um processo de vestir pijamas, pentear cabeleiras e escovar dentes. É. Escovar dentes. Praticamente um pesadelo para mim. Por que? Porque Catarina é o tipo de criança que tranca a escova na boca enquanto estou escovando os dentes dela. Uma delícia de criança. E quando eu acho que tudo acabou, que o quarto está escuro e elas estão em silêncio, minha grandona pula da cama e grita desesperada: Mas mamãe... e o nosso Toddy? Você esqueceu o nosso Toddy!

A verdade é que desde que eu fiquei sozinha a coisa toda piorou muito. Essa aventura de ter filhos pequenos é para quem sempre desejou ter uma vida selvagem. Mas eu nunca desejei ter uma vida selvagem sozinha. Porque por mais presentes que sejam os ex-maridos, é no cotidiano que a gente sofre essa solidão cansada e se descabela quando desconfia, que esse modo de vida, nunca mais vai mudar.

Eu sei que vai. Um dia esse tempo vai passar e eu vou olhar as fotos delas com uma saudade dilacerante de quando elas eram pequenininhas. É injusta essa parte da evolução da espécie. Porque eles crescem e viram nossos amigos. Companheiros de caminhada, espectadores da nossa história. É maravilhoso. Mas ainda assim é duro saber que de alguma forma, aquelas crianças bagunçeiras e melequentas, a gente não vai poder segurar no colo nunca mais.

Hummm. Pensando bem... ainda bem.